Na noite de terça-feira, 16 de dezembro de 2025, depois da vitória do Golden State Warriors sobre o Denver Nuggets no Chase Center, em San Francisco, o técnico Steve Kerr não falou apenas sobre o jogo — ele falou sobre o que está corroendo o coração do basquete profissional. "A maior coisa é que nossos jogadores enfrentam muita raiva dos torcedores", disse Kerr, com a voz pesada, diante de uma sala de imprensa que já sabia: algo estava errado. Não era só o desempenho de Aaron Gordon, que fez 50 pontos. Era o clima. A pressão. As mensagens. E, pior: o silêncio que precedeu tudo isso.
Os e-mails que ninguém quer receber
Kerr, cujo nome completo é Stephen Douglas Kerr e que já foi presidente de operações de basquete do Golden State Warriors entre 2014 e 2016, contou histórias que soam como pesadelos de um ex-jogador. "Já recebi e-mails de pessoas que eu nem conheço dizendo: 'Obrigado por estragar meu jogo hoje — você colocou tal jogador em quadra e eu tinha dinheiro naquilo'. É estranho. É assustador."
Ele não estava exagerando. Desde que a Suprema Corte dos EUA derrubou a Professional and Amateur Sports Protection Act em 2018, apostas esportivas se tornaram parte da cultura americana — e do basquete. Hoje, em qualquer jogo do NBA, há centenas de torcedores não apenas torcendo por um time, mas apostando em pontos, assistências, até em quem vai fazer o primeiro cesto. E quando o resultado não bate com a aposta? A raiva cai sobre os ombros dos jogadores.
As redes sociais viraram campo de batalha
Stephen Curry, o astro de três títulos e que marcou 30 pontos naquela noite, tentou acalmar: "Todo mundo está muito atento ao que pode ou não fazer. Não é só um problema do NBA. É novo para todos nós. A integridade do jogo está intacta." Mas Curry, mesmo sendo o mais calmo da equipe, não nega o peso. "Você vê comentários. Eles não falam mais: 'Vamos, Curry, faz um triple!'. Agora falam: 'Curry, precisa fazer 32 pontos pra eu ganhar meu parlay'. É desrespeitoso. É pessoal."
Essa mudança cultural foi confirmada por um jogador anônimo da NBA — provavelmente Nikola Vucevic, do Chicago Bulls — que disse: "Antes, ouvíamos: 'Vuc, ganha aí!'. Agora é: 'Meu parlay precisa de 10 rebotes'. Isso me deixa furioso. Porque não é mais sobre o jogo. É sobre dinheiro."
E isso não é só nos EUA. "É um problema mundial", continuou o jogador. "Você baixa um app, coloca cinco dólares, e já está no meio disso. Quando você entra na quadra, sente isso. A pressão. A expectativa. Não é só você jogando. É você jogando para alguém que apostou seu aluguel."
O que a liga está fazendo — e o que não está fazendo
A investigação da NBA, anunciada oficialmente na segunda-feira, 15 de dezembro de 2025, ainda está nos estágios iniciais. Mas as equipes já agiram. No sábado, 12 de dezembro — exatamente quatro dias antes do comentário de Kerr —, os advogados do Golden State Warriors reuniram todos os jogadores, técnicos e staff para uma sessão obrigatória sobre as regras de apostas. O mesmo aconteceu em pelo menos sete outras equipes, segundo fontes da ESPN.
O que foi dito? Nada de apostar em jogos da NBA. Nada de compartilhar informações internas. Nada de conversar com bookmakers. Violar isso pode levar à suspensão vitalícia — como aconteceu em 1951, quando jogadores da Universidade de Kentucky, incluindo Alex Groza, foram banidos para sempre por manipular jogos. A liga não quer repetir esse capítulo.
Apesar disso, o Golden State Warriors foi além. Eles criaram protocolos internos de monitoramento, reuniões mensais com compliance officers e até um canal anônimo para denúncias. "Nossa equipe jurídica não está apenas cumprindo o mínimo", disse um funcionário da organização, sob anonimato. "Estamos tentando proteger nossos homens. Eles não são mercadorias. São pessoas."
O que vem a seguir
As autoridades da NBA devem divulgar as primeiras conclusões da investigação entre 30 e 60 dias. Mas já há sinais de que o problema é maior do que se imaginava. Um jogador anônimo disse que "acordou com a notícia na segunda-feira e dormiu o treino". Outro, de uma equipe do Sul, contou que um assistente técnico foi afastado temporariamente por suspeita de contato com um site de apostas.
O que torna isso ainda mais delicado é que os jogadores não são os únicos afetados. Técnicos, treinadores, até os funcionários de transporte dos times estão sob escrutínio. "Se você tem acesso a informações sobre lesões, rotinas de treino ou até o humor de um jogador antes do jogo — você é um alvo", explicou um consultor de ética esportiva que trabalha com a liga.
Por que isso importa para você
Se você é torcedor, isso afeta você. Porque quando o basquete deixa de ser esporte e vira um jogo de apostas, você perde a emoção genuína. Quando um jogador faz um lance difícil, não é mais por paixão — é por medo de ser ameaçado. Quando um técnico muda o time, não é por estratégia — é por pressão de quem apostou no jogador que saiu.
A NBA tem a chance de ser um modelo de integridade. Mas só se agir com coragem — e não apenas com regras. Porque regras não impedem pessoas de baixar apps. Apenas a cultura pode fazer isso.
Frequently Asked Questions
Como as apostas esportivas afetam os jogadores da NBA?
Jogadores recebem mensagens de ódio, ameaças e pressão nas redes sociais de torcedores que apostaram em seus desempenhos. Alguns relatam que comentários como "você precisa fazer 30 pontos pra eu ganhar" são comuns. Isso gera ansiedade, dificulta o foco e transforma o esporte em uma fonte de estresse, não de inspiração. A pressão é tão intensa que alguns atletas desativam suas contas durante a temporada.
O que a NBA proíbe exatamente em relação às apostas?
A NBA proíbe jogadores, técnicos e funcionários de apostar em qualquer jogo da liga, compartilhar informações internas (como lesões ou estratégias) ou interagir com casas de apostas. A violação pode resultar em suspensão sem salário, multas ou até banimento vitalício, como ocorreu com jogadores envolvidos no escândalo de 1951. A liga também exige treinamentos obrigatórios trimestrais sobre o tema.
Por que o Golden State Warriors foi mais longe que outras equipes?
O Golden State Warriors tem uma cultura de proteção ao jogador desde a era de Stephen Curry. Eles criaram um sistema interno de monitoramento, canais anônimos de denúncia e reuniões mensais com compliance. Isso acontece porque a equipe já enfrentou casos de assédio online extremo — e sabe que, sem ações proativas, o problema só piora. Outras equipes estão seguindo o exemplo, mas ainda sem a mesma estrutura.
O que os torcedores podem fazer para ajudar?
Torcedores podem escolher apoiar o esporte, não as apostas. Evitar comentários que reduzem jogadores a estatísticas — como "fez 25 pontos, perdeu meu parlay" — é o primeiro passo. Também podem denunciar perfis que incitam ódio ou pressionam atletas. A liga reconhece que o verdadeiro mudança virá da base: quando os torcedores se recusarem a normalizar esse comportamento, a cultura começará a mudar.
Existe algum precedente histórico nesse tipo de escândalo?
Sim. Em 1951, o escândalo de manipulação de jogos na Universidade de Kentucky levou ao banimento permanente de jogadores como Alex Groza, que aceitou dinheiro para manipular placares. O basquete americano quase entrou em colapso. O NBA aprendeu a lição — mas agora, com apostas legais e apps acessíveis, o risco é diferente: não é mais jogadores corrompidos, é torcedores que transformam atletas em fichas de jogo.
A integridade do basquete está realmente em risco?
Ainda não. Mas o risco é real. Jogadores como Curry e Kerr afirmam que a integridade está intacta — mas também admitem que o clima está tóxico. Se a pressão continuar crescendo, e a liga não agir com firmeza, pode haver um momento em que um jogador, cansado de ser tratado como um número, decida agir. E aí, o jogo nunca mais será o mesmo.